Jornalismo discute as inter-relações entre política e religião

“Nós não queremos que nos tolerem, nós queremos respeito”. Dita de forma muito emocionada e pessoal pela mãe de santo Viviane de Oşùn, a frase atravessa o ambiente lotado e logo depois recai com o peso dos 2 segundos de silêncio que antecedem os aplausos. Ela foi uma das convidadas da mesa redonda que aconteceu no dia 21 de julho, no auditório do PAT (Pavilhão de Aulas Teóricas), e contou ainda com a presença do pastor Henrique Vieira e da deputada estadual Mônica Francisco. Cheias de falas poderosas e diretas, a reunião seguiu discutindo sobre preconceito e a linguagem político-social das manifestações religiosas.

Flora Daemon mediou a mesa redonda/ Foto: Nicole Lopes

A palestra “Política e Religião: os Direitos Humanos e a coragem tolerante” foi organizada pela docente do Departamento de Letras e Comunicação(DLC/ICHS), Flora Daemon. O evento, aberto à comunidade, foi atividade da disciplina de Comunicação e Cidadania, do curso de Jornalismo. Segunda a professora, a ideia da expressão “coragem tolerante” partiu da vontade de ausentar o termo “intolerância religiosa”, que traz carga pejorativa à discussão. Nessa noite, em específico, o preconceito não foi o protagonista no discurso dos convidados, que falaram sobre como a teologia e as entidades religiosas conversam com nosso cotidiano e com os problemas sociais que enfrentamos.

 

Viviane de Oşùn (centro) entre Mônica Francisco e Henrique Vieira/ Foto: K.Tortorelli

Após testemunho de Viviane, quem falou foi Henrique Vieira, que chamou a atenção para os muitos perigos do fundamentalismo religioso. Na visão do pastor, esse fenômeno cria barreiras entre o verdadeiro sentido da religião e os fiéis, que são fortalecidas pela intolerância e pelo racismo. “O fundamentalismo não trabalha  com a beleza, não com a verdade e nem com a manifestação do sagrado. Ele vê na diversidade um problema (…). Não basta falar em fundamentalismo ou intolerância, porque para isso tem um nome muito mais especifico, que é o racismo”, definiu Henrique. A terceira, mas não menos importante voz da noite foi Monica Francisco, que ratificou as falas anteriores, mas também responsabilizou os meios de comunicação que estão na mão de grandes conglomerados religiosos. Para a deputada, tendo a habilidade de alcançar os lugares mais remotos do país, esses veículos contribuem para ‘doutrinação do preconceito’.

 

O evento ainda contou com uma apresentação do grupo Baque da Seda, um projeto de extensão da Rural que trabalha com toques e ritmos africanos, além de oficinas de dança e de percursão. Encerrando a noite com a premissa maior: manter a atitude rebelde de não se render a desesperança e o desespero, ilustrada por um poema do pastor Henrique Vieira.

O que é fundamentalismo religioso: O termo moderno pode se referir à crença ou convicção de que algum texto ou preceito religioso seja infalível e historicamente preciso, ainda que contrários ao entendimento de estudiosos modernos. É caracterizado pelo senso de esvaziamento do meio cultural, onde a cultura pode também ser influenciada pela religião dos partidários.

 

Texto: Nicole Lopes/estagiária de jornalismo do ICHS

Imagens: Kati Tortorelli  e Nicole Lopes

 

Postado em 27/07/2022 - 18:20

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